sexta-feira, 10 de julho de 2009

Primeiras-damas são vaiadas na Itália

Por Vera Gonçalves de Araújo
Repórteres bem mais competentes dão conta do recado, contando os aspectos politicos, diplomaticos, econômicos dessa reunião do gê-oito (que na verdade é um gê-catorze) em L'Aquila, evento global que a Casa Branca prefere definir gê-oito Canadá, França, Alemanha, Japão, Grã Bretanha, Itália, Estados Unidos e Rússia mais cinco Brasil, China, India, México e África do Sul mais um o convidado especial Egito. Os colegas jornalistas sérios estão pisando e respirando a poeira das ruínas da cidade destruida pelo terremoto. Trabalhando num quartel, num clima abagunçado e divertido que só brasileiros e italianos conseguem criar. Eu estou em Roma, como as primeiras-damas. E como as primeiras-damas, falo só de coisas leves e secundárias. Como a visita de George Clooney à cidadezinha de Sant'Eusanio Forconese. O ator americano foi recebido pelo povo que vive acampado nas barracas com entusiasmo bem maior do que os políticos e cartolas que andam passeando em L'Aquila. Prometeu rodar um filme na capital do Abruzzi, comentando que este lhe parece a melhor maneira de ajudar a relançar a economia local. Clooney visitou o acampamento em companhia do colega ator Bill Murray, de Massimo Cialente, prefeito de L'Aquila, e de Walter Veltroni, seu amigo e ex-secretário do Partido Democrata. Disse que está acostumado com terremotos em Los Angeles a terra treme bastante mas que nunca viu cenas de destruição como estas. O que é preciso agora é chamar a atenção, e estamos aqui para isso. A mesma situação dos campos de refugiados no Darfur, o mesmo problema que se criou em New Orleans, depois da enchente.O G8 + 5 +1 vem desmentindo as previsões negativas de boa parte da grande imprensa, chefiada pelo New York Times e pelo inglês The Guardian. Nenhum vexame berlusconiano, nenhum drama. Hoje se registraram quatro mini-terremotos em L'Aquila, mas ninguém se assustou. As primeiras-damas encontraram na cabeceira as instruções para enfrentar um sismo mais sério, superior aos 4 graus. Aposto que todas experimentaram os capacetinhos amarelos que encontraram no quarto do quartel de Coppito. As correspondências mais divertidas são as enviadas via Twitter. Os repórteres são obrigados a resumir as notícias numa frase só o que só pode ajudar, num país como a Itália, onde os artigos viram obras de literatura barroca: "Daqui a poucos minutos a entrevista coletiva de Berlusconi, ao contrário de ontem hoje os jornalistas poderão fazer perguntas" "pia" Vittorio Zambardino, do Repubblica.Graças ao Twitter, é possível saber o que está acontecendo também entre os "no global" - que desta vez não puderam organizar passeatas e manifestações contra o G8 + 5 +1. Mesmo assim, os sinais de contestação encontram espaço - como os do comitê "3 e 32" (a hora em que aconteceu o terremoto que destruiu L'Aquila e várias outras cidades do Abruzzi, no dia 6 de abril). A organização das vítimas do sismo pichou vários muros da cidade com uma frase dedicada diretamente a Barack Obama, "yes we camp", que resume a situação desesperada em que vivem há três meses os sobreviventes, acampados em barracas provisórias e sem previsão de voltar tão cedo para uma casa de verdade.Descobrimos também que a dona Michelle pediu uma "doggy bag" (o saquinho com os restos do jantar para dar ao cachorro), o mesmo que meu avô pedia quando almoçava na rua da Alfândega. O dele não era pra cachorro, era pra mendigo mesmo. O da Michelle não se sabe quem comeu, porque o cachorrinho dos Obama não foi convidado para o G 8+5 +1. Enfim, uma notícia fundamental: o costureiro Valentino deu nota dez às roupas escolhidas por todas as primeiras-damas presentes. Enquanto passeavam entre as ruínas de L'Aquila, ontem à tarde, as "first ladies" foram vaiadas pelas "last ladies" as mulheres da cidade, obrigadas a viver em condições horríveis desde a noite inesquecível de 6 de abril. Elas escreveram nos bandejões que usam todos os dias para as refeições: "Para as primeiras-damas passeios no centro. Para as mulheres de L'Aquila tendas e cimento".

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