terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Os criminosos trotes estudantis

Por Rizzatto Nunes
O trote estudantil, humilhante e selvagem, ao invés de integrar o aluno recém-aprovado sempre foi um modo fascista de receber aqueles que ingressavam nas faculdades. Lembro que quando ingressei na Faculdade nos idos de 1976, nós estudantes já pensávamos que aquilo era um jeito muito estranho de dar boas vindas. Não só eu, mas muitos de nós, achávamos uma contradição os jovens ingressarem na faculdade um restrito setor da elite brasileira ¿ e se mostrarem tão mal educados: ao invés de agradecer ao privilégio e dar as boas vindas aos ingressantes, agiam como bárbaros, arrogantes e sádicos. Os trotes eram generalizados, sendo praticados em quase todas as escolas. Felizmente, isso mudou em parte: são muitas as escolas que não só proíbem os trotes violentos, como vários Centros Acadêmicos (CAS), cônscios de suas responsabilidades como guardiões dos direitos e das liberdades também os combatem. Muitas escolas e CAs, por exemplo, substituíram esse tipo de delito pelos chamados "trotes solidários": organizam festas de recepção, shows, teatros nos quais os calouros não só participam como distribuem produtos alimentícios, medicamentos e roupas para serem doados à Instituições de Caridade. Conheço escolas em que os veteranos montam grupos de recepção para integrar os calouros na vida universitária, mostrando o funcionamento efetivo do campus, o método de ensino, as condições reais de estudo, explicando as regras vigentes etc. Isso é mesmo muito bom. Todavia, infelizmente, nem bem o ano letivo começou e a violência retornou. Se eu dissesse a você, leitor, que um jovem de 18 anos, que estava assistindo aula, foi da sala retirado à força, foi deixado descalço e com as roupas rasgadas, o corpo pintado, a carteira e seus cadernos roubados e foi-lhe enfiada pela goela abaixo bebida alcoólica e também álcool combustível (isso: álcool para motor de automóvel), se eu dissesse que isso foi feito, você pensaria que se trata de agrado de boas vindas? Ou que se trata de um grupo de bandidos, como os que se encontram em qualquer cidade brasileira, praticando roubo e tortura? A resposta, evidentemente, aponta para uma quadrilha covarde e violenta. A denúncia dos calouros e a punição administrativa dos veteranos com suspensões e até expulsões têm funcionado muito bem onde praticado. A punição exemplar é, nesses casos, muito eficaz. Não se deve esquecer que nem sempre os calouros querem participar desse tipo de masoquismo explícito. É preciso oferecer a eles um meio de se proteger. É preciso que eles possam falar e ser ouvidos. Claro que, nesse ponto, também, as autoridades policiais têm se omitido, uma vez que muitos trotes são feitos em praça pública (literalmente), ruas e avenidas.

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