domingo, 7 de fevereiro de 2010

Para fazer o adolescente leitor

Por Daniel Piza
A morte de J.D. Salinger me fez repensar nas leituras de adolescência. De vez em quando recebo emails de leitores que querem que seus filhos sejam iniciados no mundo dos livros, me pedindo listas e propondo que os acompanhe, e sempre me lembro de uma linda crônica de Gerardo Melo Mourão sobre convite semelhante, na qual descreveu suas próprias leituras. Bem, Mourão era seminarista e com 14 anos já sabia grego e latim e já tinha lido os grandes clássicos, de Homero e Horácio a Dickens e Proust; então não espanta que não tenha aceitado a sugestão de ser uma espécie de preceptor do filho do amigo. Já cometi minhas listas, traduzi ficções como A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, e escrevi um livro inteiro sobre o que a descoberta de autores como Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Joseph Conrad e Kafka causou em minha vida juvenil. Mas, na verdade, tenho muitas dúvidas de que um esquema funcione. Ler, como viver, não tem receita, e se tiver causa efeitos colaterais indesejáveis, contaminando até mesmo a liberdade e o desprendimento que deveria tonificar, como nesses “meninos da bolha” que põem o livro entre eles e a realidade. Não digo que Mourão fosse assim; mas o exagero pró-erudição pode atrapalhar e iludir.

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